IFCE investiga possível descoberta de petróleo durante escavação de poço de água no sertão do Ceará

  • 21/02/2026
(Foto: Reprodução)
IFCE investiga possível descoberta de petróleo durante escavação de poço de água no Ceará Um grupo de pesquisadores do Instituto Federal do Ceará está investigando uma possível descoberta de petróleo no município de Tabuleiro do Norte. Testes laboratoriais apontaram que a amostra encontrada tem as mesmas características físico-químicas do petróleo de jazidas da região vizinha, no Rio Grande do Norte. A Agência Nacional do Petróleo foi notificada sobre a possibilidade, mas ainda não respondeu. A equipe do IFCE foi acionada após moradores encontrarem uma substância com características semelhantes ao líquido. A ocorrência foi registrada em dezembro de 2024 na localidade de Sítio Santo Estevão, na zona rural do município, enquanto agricultores furavam um poço de aproximadamente 40 metros de profundidade em busca de água para abastecimento. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Ceará no WhatsApp Após encontrar a substância, a família do agricultor Sidrônio Moreira contatou o IFCE relatando que, ao perfurar o solo, havia encontrado um líquido viscoso, escuro, de odor característico semelhante ao de óleo automotivo. (Veja nas imagens acima) 📍Localizada a cerca de 210 quilômetros de Fortaleza, Tabuleiro do Norte fica na divisa com o Rio Grande do Norte e faz parte da região do Vale do Jaguaribe. IFCE investiga possível achado de petróleo em Tabuleiro do Norte (CE) Marcelo Andrade/IFCE LEIA TAMBÉM: Óleo derramado no Nordeste em 2019 viajou mais de 8 mil quilômetros e chegou à Flórida, diz pesquisa A instituição recebeu uma amostra do material para análise e, posteriormente, recorreu ao Núcleo de Pesquisa em Baixo Carbono da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa), em Mossoró (RN), onde realizou análises físico-químicas do líquido. “Conseguimos perceber que realmente se tratava de uma mistura de hidrocarbonetos [tipo de compostos químicos dos quais o petróleo faz parte] muito característica, com propriedades muito similares ao petróleo da região onshore [em terra] da Bacia Potiguar”, informou o engenheiro químico Adriano Lima, agente de inovação do IFCE de Tabuleiro do Norte para o Vale do Jaguaribe. ➡️ A Bacia Potiguar é uma área localizada entre o Rio Grande do Norte e o Ceará, compreendendo também território no continente (onshore) quanto no mar (offshore). Em diversos pontos da bacia, há petróleo. Para fins legais, a bacia é dividida em "blocos", e a exploração de petróleo é liberada em diversos blocos mediante leilão para empresas exploradoras de petróleo. As análises, portanto, confirmaram que o líquido encontrado em Tabuleiro do Norte é um tipo de hidrocarboneto que, em termos de densidade, viscosidade, cor e cheiro, se assemelha ao petróleo encontrado nas redondezas. Apesar disso, somente após análise de um laboratório credenciado pela Agência Nacional do Petróleo (ANP) será possível afirmar que substância realmente é petróleo. Substância extraída em Tabuleiro do Norte (CE) foi levada para estudo em laboratório no Rio Grande do Norte Divulgação O território do município de Tabuleiro do Norte não está inserido em nenhum bloco de exploração de petróleo, no entanto, a localidade onde a substância foi descoberta está a apenas 11 quilômetros de distância do bloco de exploração mais próximo, o que, somado ao resultado da pesquisa do IFCE, sugere a possibilidade de realmente haver petróleo na região. O pesquisador, no entanto, alertou que a confirmação de que a substância é um hidrocarboneto não configura confirmação oficial de que há uma jazida de petróleo na propriedade nem que é a exploração econômica é viável. Ou seja, não se sabe qual a quantidade, a qualidade e a viabilidade. Maior mina de urânio do Brasil promete empregos, mas especialistas apontam risco de contaminação O agricultor Sidrônio Moreira, por sua vez, aguarda a resposta da análise da ANP sobre o petróleo, mas sua mente está em outro líquido: a água. “Eu tinha vontade que eles viessem aqui ver isso aí e continuassem para frente para ver se dava alguma coisa. Qualquer coisa que desse aí servia para a gente, porque é uma calamidade muito grande de água aqui”, concluiu. Longo processo Após encontrar o líquido escuro, o IFCE orientou a família quanto aos procedimentos cabíveis, especialmente sobre a notificação ao órgão oficial responsável, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). A ANP é o responsável, no Brasil, por regular e fiscalizar todas as etapas da exploração de petróleo no Brasil, desde a descoberta até o início do processo de extração. Nestes casos, após a descoberta de uma possível jazida, é feita uma notificação ao órgão, que pode iniciar estudos para averiguar se, de fato, há petróleo na região, em que quantidade e de qual qualidade. "Algumas regiões eles já têm muito bem mapeado. Regiões que existem estudos, especialmente os estudos geológicos, onde eles fazem análises físicas para ver o fato, como é que está o subsolo, para avaliar o tamanho do poço, do reservatório. Quando eles reúnem essas informações, informações econômicas, de impacto ambiental, eles tramitam um processo de enquadramento daquela área, como um novo bloco a ser colocado em operação", explica o engenheiro Adriano Lima. Após a confirmação e delimitação das jazidas, a ANP divide a região em blocos de exploração, isto é, em diferentes áreas que serão leiloadas para as empresas realizarem a exploração de petróleo. O processo como um todo, desde a descoberta até a conclusão das pesquisas, leilão, instalação da operação, obtenção de licenças ambientais, pode levar anos. Agricultores furaram poço em busca de água e encontraram substância semelhante a petróleo, em Tabuleiro do Norte (CE) Reprodução O tamanho do território brasileiro também dificulta a velocidade do trabalho da agência, uma vez que não há disponibilidade de recursos para avaliar todos os pedidos de imediato. Conforme Adriano Lima, já faz mais de 6 meses desde que o achado em Tabuleiro do Norte foi comunicado à agência, sem resposta. Muitas vezes, ocorre de uma área já mapeada e liberada para exploração pela ANP não atrair interesse de investidores devido ao tamanho da jazida, a dificuldade de extração, o custo da instalação da operação ou mesmo a baixa qualidade do petróleo, que exigiria mais gastos no processo de refino. Portanto, mesmo com a formação de um bloco de exploração, há a possibilidade dele nunca ser arrematado para exploração. Em junho de 2025, a ANP tentou realizar pela terceira vez o leilão de blocos de exploração na Bacia Potiguar, mas nenhuma empresa apresentou propostas. "O custo de se montar uma unidade de produção numa região tem que ser equivalente ao retorno que a operação vai ter. Então, pra empresa, por exemplo, arrematar um bloco no semiárido nordestino, em cima da Chapada do Apodi, considerando os cálculos de custos ambientais, impactos ambientais, custos econômicos de operação, tem que ser proporcional ao retorno que ele vai ter daquele material que ele vai extrair. O retorno tem que estar relacionado à qualidade do óleo que ele vai extrair e à quantidade, à duração, o tempo que ele vai conseguir produzir", avalia o pesquisador. Cuidado ambiental Ao g1, o pesquisador contou que, durante a investigação sobre a substância, manteve um diálogo com a comunidade local para tentar evitar que outros moradores buscassem furar poços especificamente em busca de petróleo, sob risco de causar contaminação ambiental de corpos hídricos em uma região que enfrenta escassez de água. "Qualquer tipo de intervenção dessa natureza, sem os equipamentos e orientações adequados, pode contaminar o lençol freático ou o aquífero, prejudicando ainda mais toda a comunidade e transformando a situação em um crime ambiental”, destaca o engenheiro Adriano Lima. Além disso, o manuseio da substância por pessoas sem conhecimento técnico e sem os equipamentos necessários pode causar riscos de intoxicação, além dos riscos de incêndio, uma vez que se trata de um material inflamável. Assista aos vídeos mais do Ceará

FONTE: https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2026/02/21/ifce-investiga-possivel-descoberta-de-petroleo-durante-escavacao-de-poco-de-agua-no-sertao-do-ceara.ghtml


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